Aniversário de parente é um terreno perigoso, em que qualquer cuidado é pouco, tanto para ser molestado por tias, quanto para ouvir piadas velhas. Ser molestado é o de menos, o problema é ouvir as piadas, que, aliás, nunca foram piadas autênticas, pois a premissa básica de uma piada é de que ela faça rir. Não importa se ela é batida, mas se ela fez rir ao menos na primeira vez em que foi proferida, tudo bem, temos uma piada. Mas convenhamos que “É pavê ou pacomê?” nunca, em hipótese alguma, foi engraçado, e provavelmente jamais será. Ela é uma das poucas coisas imutáveis da vida: seu potencial de riso é nulo através da história.
O aniversário estava indo normalmente quando alguém colocou o pavê em cima da mesa. Aí é a crônica de uma morte anunciada: cedo ou tarde alguém sucumbiria à tentação irresistível de bradar a piada. É questão de tempo e estatística: nunca na história das sobremesas, um pavê passou incólume às babaquices alheias. Está aí um objeto para psicologia. Se todo mundo pensa a mesma coisa sobre o assunto e ele não causa mais sobressaltos, para que tocar no assunto? Que TOC é esse que só faz a pessoa descansar em paz se ela perguntar “É pavê ou pacumê?” Pra mim, a pessoa que faz uma coisa dessas é a mesma que se sente obrigada a ligar e desligar 17 vezes a luz do quarto antes de entrar nele, senão sua família toda vai morrer inexplicavelmente.
Um parêntese: Deve ser um saco ter TOC e receber correntes de e-mail.
Mas enfim, imagine que você tem um cinturão de dinamite, e precisa entregar para alguém numa roda:
a) Um baleiro de trem
b) Um ator pornô
c) Um pai de família
d) Um membro de uma célula terrorista louco para destruir algum lugar em nome de uma religião.
Aí você, cheio de bom senso, escolhe a opção D (seu terrorista). Foi exatamente o que aconteceu com o pavê. Das pessoas que poderiam servi-lo ao público, a tia mais pentelha de todas ficou com a incumbência. Aí fudeu, minha amiga, ela saiu alvejando épavêoupacumê a cada pedaço que distribuía. Na quinta vez, eu gargallhei e disse “Essa é boa, vocês ouviram? Hahaha, ai ai…” Aí ela se encabulou um pouco. Mas assim como vício em crack, a recaída em épavêoupacumê é rápida e mortal. Ela não só continuou como contaminou os outros, tal qual uma morta-viva da piada desgastada. Perdi pra tia pentelha.
Tudo bem, pessoas mais velhas são mais teimosas e têm menos ímpeto para mudanças radicais. Mas você, meu leitor precioso, minha leitora adorada, aproveite o tempo longo que tem pela vida para coibir o clichê no mundo. Dá, sim, para acreditar em um futuro próximo em que alguém vai estar na cabeceira da mesa do bar sem ouvir retardos sobre conta. Depende só de nós saborear o pavê sem o gosto de merda que a piada tradicional tem. Temos que ter fé e lutar para que um dia, se alguém tiver problema na junta, ninguém complete de maneira mongoloide. E o mais importante, se alguém à 00h27min disser que tem que trabalhar amanhã… Deixem que ele trabalhe só amanhã.
A União faz a força, pessoal (se falar “faz o açúcar”, você não está preparado para entrar no nosso grupo revolucionário).
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